O poder de transformação dos pagamentos instantâneos e o fim do dinheiro

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A inegável evolução e disseminação da tecnologia, associada a mudanças no comportamento dos consumidores, tem impulsionado importantes evoluções que impactam todos os setores da economia.

No caso específico do segmento de serviços financeiros, essa transformação tem acelerado a criação de novos produtos e serviços, assim como a ampliação de ecossistemas de pagamentos cada vez mais abertos.

Com a entrada em vigor do PIX, Sistema de Pagamentos Instantâneos no Brasil, espera-se naturalmente uma aceleração ainda maior desse movimento, tornando-se assim um importante marco para os consumidores, bancos, comércio e até para outros ecossistemas que ainda não necessariamente visualizaram esse possível momento de ruptura.

Vale destacar que um dos motivos que tem incentivado os avanços recentes no segmento financeiro no Brasil é também o fato de hoje termos um ambiente regulador favorável. O Banco Central vem claramente incentivando um maior nível de competição e inovação.

E o PIX representa um dos alicerces dessa agenda estratégica do Banco Central, denominada de BC#. A construção de uma infraestrutura de pagamentos instantâneos no país será um importante passo para essa transformação, que já vem ocorrendo desde a promulgação da Lei 12.865/13, chamada à época lei dos meios de pagamentos.

O PIX permitirá transferências e pagamentos entre pessoas, empresas e governos de maneira mais simples e barata, em um sistema que vai funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana.

O serviço possibilitará ainda compras em estabelecimentos comerciais físicos por meio do uso da tecnologia de QR Code, um modelo de código que passou a ser amplamente usado no mundo e que a partir da sua leitura pelo celular direciona o consumidor para a solução de pagamento.

Mas o mais revolucionário é trazer para o mercado brasileiro o advento da “instantaneidade” no processo de transferência interbancária de recursos. Isso não é uma questão trivial, pois nunca tivemos uma infraestrutura que proporcionasse esse tipo de transação no Brasil de uma maneira tão ampla. O mais próximo que temos disso é o eficiente sistema de cartões já amplamente utilizado no País.

Neste aspecto, o PIX viabilizará uma série de inovações, tanto na “indústria” de meios de pagamentos como em outros mercados, sendo alguns até mais evidentes como no comércio eletrônico e nas pequenas transações comerciais entre pessoas.

Mas essa nova modalidade pode ir muito além, estimulando a criação de soluções inéditas ou que venham atender a uma demanda reprimida de mercado, tais como empréstimos entre pessoas, leilões virtuais, venda de microsseguros, entre outros tantos serviços que podem ser favorecidos pela instantaneidade.

Não é à toa que 980 instituições se inscreveram no programa e somente 34 eram realmente obrigadas pela regulação a participar

Não é à toa que 980 instituições se inscreveram no programa e somente 34 eram realmente obrigadas pela regulação a participar. Do total de inscritos, 120 serão participantes diretos do sistema de pagamentos instantâneos e as demais irão participar plugadas em uma dessas maiores instituições. Vejam a revolução que essa lógica pode trazer na dinâmica competitiva do sistema financeiro num futuro próximo.

No entanto, o PIX precisará enfrentar um grande desafio: estimular a mudança de hábito do consumidor. Isso porque ele afeta desde o uso dos cartões de débito e do papel moeda, até os diversos tipos de operações bancárias amplamente conhecidas, incluindo o uso de TED/DOC e até o pagamento por boletos. Dessa forma, o seu sucesso depende mais de uma educação da população e de uma comunicação massiva sobre o tema, do que da própria tecnologia em si.

Entre os benefícios diretos, está a possibilidade de inclusão financeira dos cerca de 45 milhões de brasileiros ainda desamparados neste quesito, bem como o apoio direto aos mais de 26 milhões de trabalhadores por conta própria, público este tão importante para o desenvolvimento econômico.

Outro impacto desejável seria a redução do uso do papel moeda em circulação, o que tende a estimular uma maior formalização da economia, uma vez em que todas as operações ficam registradas. Tente imaginar o custo atual da sociedade com o nível de uso do dinheiro no estágio em que se encontra, principalmente em termos de necessidade de proteção, na violência sofrida pelos mais desamparados e no campo fértil da informalidade como instrumento de ampliação da desigualdade.

Entre os benefícios diretos, está a possibilidade de inclusão financeira dos cerca de 45 milhões de brasileiros 

O mercado de cartões sempre teve como objetivo maior a substituição do dinheiro e vem obtendo importantes avanços nesta frente nos últimos anos. Logicamente o sucesso do PIX dependerá também do engajamento das instituições participantes, muitas delas grandes emissores de cartões.

Mas, ao que tudo indica, tanto os grandes quanto nos novos entrantes já demonstraram forte interesse pelo tema. Isso poderá desencadear um ciclo virtuoso em que as plataformas de cartões e o PIX possam conviver de maneira harmoniosa, interligadas e com o objetivo maior de fortalecer a economia brasileira. Com certeza, existe espaço para todo mundo.

Enfim, independentemente do tempo a ser investido na educação dos usuários e na disseminação de novos produtos e serviços que serão criados a partir da implementação do PIX, as expectativas são de que essa nova infraestrutura provoque mudanças significativas em médio e longo prazos na forma como os brasileiros lidam com o seu dinheiro, principalmente a partir de um ambiente mais digital, eficiente e inclusivo.

*Raul F Moreira, é Diretor Executivo do Banco Original, membro do Conselho de Administração da PicPay, membro da Diretoria da ABECS – Associação Brasileira de Empresas de Cartões e Serviços e membro da Diretoria da ABBC – Associação Brasileira de Bancos.

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